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25.7.16

CACO E PAPEL

Imagem por: Pexels.com
Deixei que o copo de vidro caísse, e sobre os cacos, velejei. Queria sentir o quão profundo os cortes seriam, e percebi que me ferir era tão prazeroso quanto quebrar os vidros. Eu não queria apenas fragmentá-los, eu queria observar tudo desmoronando. Eu gostava do efeito que a hélice tinha sobre minha pele, quando eu permitia que ela me rasgasse e se banhasse em meu sangue. Admirar o meu corpo perfurado e meus ossos se partindo era engraçado, e ver os cacos de vidro refletirem meu sorriso sem dentes e ensanguentados, me incentivava a continuar.

Diversos papéis espalhavam-se pelo chão, e eu podia sentir que todos tentavam fugir de minhas mãos. Mas eu fui rápido o suficiente para pegá-los e engoli-los sem mastigar. De todo modo, eu insistia em guarda-los dentro de meu estômago. Eu queria ter dentes para puder despedaça-los, mas como eu não tinha, no final da noite eles voltavam para o chão através de meu vômito. Por isso eu ingeria o vidro, para deixar que ele corroesse o meu estômago a procura dos papéis que lutavam para continuar ao meu redor. 

Esses papéis estavam sempre fechados, amassados, em formato de bolinhas – não era fácil ingeri-los. Uma vez, uma única só vez, quando eu não tinha mais forças para vomitá-los, resolvi abri-los. Foi quando no chão frio do cômodo escuro, rodeado de papéis feito embrulhos que me cercavam, percebi que dentro deles havia algo perturbador. Uma coisa estranha, que eu nunca imaginei que estaria ali. Que me encarava como se tentasse me entender. Eu não conseguia acreditar no que os meus olhos me mostravam, mas era o que eu enxergava.

Eu enxergava palavras, e nas mãos delas, que eu morri.