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23.7.18

SOB TERRA E FERRUGEM


Se eu soubesse que eu terminaria debaixo dos trilhos, eu jamais teria entrado naquele vagão. E voltaria para casa me arrastando na estrada quente e as minhas feridas não seriam tão dolorosas quanto as quais você causou. Eu estava indo em direção ao precipício, segurando a mão de quem mais tarde me esqueceria nas estranhas de um final de linha velho e enferrujado. Agora há pedaços meus em todos os lugares que fomos. Reencontrá-los tem sido o fardo qual sou obrigado a carregar para que assim eu possa arrumar a bagunça que você deixou antes de ir. Tudo tem custado meu sangue e suor, porque eu nunca tinha me envolvido com algo tão sujo.

Era início de agosto e tudo o que eu deveria ter feito é ficar em casa, mas nada impediu a desgraça que o destino havia me reservado. O relógio poderia não ter despertado, as horas poderiam ter sido confundidas ou um carro poderia ter colidido com o meu corpo em uma rua deserta. Eu estaria ensanguentado sobre a pista, e sabendo que eu poderia encontrar você, imploraria ao desconhecido que passasse com suas rodas em minhas pernas. E o deixaria livre para fugir, mantendo o que há em meu peito, inquebrável

Mas ao invés dá dor momentânea que faria eu cuspir os meus órgãos, fui condicionado a sorrisos pretensiosos e saudações que diziam “não há trem chegando, talvez devêssemos andar sobre os trilhos”, e tudo o que os meus olhos respondiam era “segure a minha mão e faça dessa a melhor sensação do mundo”. E você fez, mas eu não sabia que tal sensação custaria caro. A minha energia foi sugada, a minha luz se perdeu de mim e a minha alma foi compartilhada com outro. E esse ciclo nunca chega ao fim, e você nunca deixa de colecionar corpos, e tais pessoas nunca deixam de se sentir um erro. Há um buraco em seu peito e não importa o quanto você tente fechá-lo, ninguém será o bastante para cicatrizar você, porque sua casca é vazia, e o seu peito não alimenta nada bom suficiente para oferecer a alguém por muito tempo.
"As minhas lágrimas caem em meu copo de café pois eu me apaixonei por outro fracassado." ♥

19.1.18

DE VOLTA A QUEM EU ERA



Eu estou dançando como uma estrela pop-rock descomunal, eu não sei ao certo quais movimentos devo fazer, mas sei que soaria ridículo se visto por alguém. Agora eu estou sozinho e eu tenho sido assistido pelas paredes. O ralo tem bebido das minhas lágrimas da mesma forma que o travesseiro tem enxugado os meus olhos. Eu seguro o frasco de shampoo e deixo o chuveiro molhar o meu corpo e tornar a cena ainda mais dramática. E eu estou rindo sob o tempo parado diante de mim. Rindo de mim mesmo. Rindo das minhas reações e dos movimentos que faço com as mãos ao supor que nela abrigo um microfone e que há telespectadores me assistindo. Eu sinto estar contando uma história para milhões de pessoas, sobre algo que vivi há muito e muito tempo, mas tudo aconteceu há algumas horas. Não, acho que foi ontem, ou talvez há uns cinco meses. Certamente há um ano.

A forma como eu interpreto uma música que não é minha e o jeito que enceno a minha dor tem me feito parecer engraçado, e eu estou me divertindo comigo mesmo, enquanto brinco com as minhas feridas e faço piada com o que tem me feito chorar. E lamento, lamento pelo fim do que jurei que seria eterno ao achar que estive predestinado a algo que considerei sem validade. Ser tolo é uma mania que carrego há um longo tempo e eu não prometo mudar.

É como tenho lidado com os fatos e tudo o que eu sei é que estou tentando me restaurar. Ainda que eu não pare de pensar o quanto poderíamos nos divertir juntos, correndo na chuva outra vez com os pés lamacentos e com algumas sacolas nas mãos. Olhando um para o outro e rindo – sem dizer nada porquê compartilhávamos dos mesmos pensamentos e conseguíamos sentir isso. Abrindo portões como quem invadem prédios a procura de um teto que nos mantenha a salvos. Nos beijando na escada escura e temendo que alguém pudesse nos ver. Era como se disséssemos; “se isto é um erro, então espero nunca estar certo”.

Por um momento pensei que o mundo era nosso e nós parecíamos imbatíveis, mas fomos os vilões da nossa própria narrativa. O risco de se permitir sentir fervia o nosso sangue, enquanto faíscas cobriam todas as nossas veias. Tudo o que eu tive me foi tirado e agora tudo o que me restou foi um vazio que tento preencher com uma boa dose de humor. Porque no fim todas as minhas dores se tornam uma grande piada. Eu vivi uma canção romântica cantada pelas jovens artistas da minha geração. Eu tive o mesmo final triste de suas histórias ritmadas, e agora, como elas, sou eu quem escrevo sobre. Mas a minha dor é tão silenciosa quanto eu. E eu tenho a mantido abafada.

21.5.17

EU VEJO VOCÊ ENQUANTO DURMO


Eu vi você enquanto dormia.
Uniforme do colegial,
mesma estação em que sempre estou.
Você sorriu e foi algo fora do comum,
você sorriu para mim como quem se despede da vida,
eu retribui como quem sente o sol pela primeira vez.
Você me abraçou e eu pensei que fosse eterno,
mas você me disse adeus,
e eu queria ter ido junto.
Agora eu vejo você toda vez que me deito,
e toda noite há um episódio novo dessa série
que só eu dirijo.
Agora você é real nos meus sonhos,
e quanto mais distante estar,
mais próximo de você eu fico.
Nós daríamos certo se você deixasse,
nós daríamos certo se você quisesse.
Eu ainda espero você voltar,
eu ainda espero você dizer oi.
Eu queria poder dizer que sinto a sua falta,
me diga aonde está agora.
Se eu soubesse como, eu me restauraria
para que você me amasse outra vez.
Se eu soubesse como,
eu faria algo para você ficar.
Eu preciso de você aqui”,
e vou repetir essa frase até que um dia,
ela não tenha mais sentido para mim.
E só assim saberei, 
que é hora de seguir em frente.

24.8.16

TERRA MOLHADA

Imagem por Pexels.com

Sentia o frio adentrar a brecha que a porta lhe dava, enquanto eu olhava através das cortinas o quanto o dia parecia embaçado. Eu quase não tinha o controle do meu corpo, que implorava para permanecer inerte. As cobertas funcionavam com ímã, e insistiam, debatiam-se tentando me alerta de que naquela manhã, eu não deveria levantar da cama. O embrulho dentro de meu estômago gritava o meu nome, o odor tentava me fazer adormecer, minhas pernas teimavam em regredir, mas eu ignorava todos as pistas recebidas.

O clima contribuía para que meu humor não permanecesse tão agradável, mas eu precisava filtrar o que eu sentia, e impedir que as minhas agulhas perfurassem tecidos que não mereciam encher-se de fardos. Lentamente, e calado, eu dava passos sem um destino o qual eu quisesse chegar. O instrumental de uma música – que eu já não lembrava o nome –, circundava por meus pensamentos, como se esperneasse para que eu a ouvisse.

Deixei a água gelada contatar meu corpo a procura da minha alma, que em todas as manhãs, perdia-se em vão. O ralo fitava-me inquieto, quase gritando meu nome. Talvez estivesse cansado da minha falta de ânimo, que a água costumava levar até ele. Pobre ralo, ele só queria que eu cantarolasse durante o banho, mesmo desafinado e fora do tom. 

O aroma do café também me causava um embrulho no estômago, e revelava uma sensação que eu já não queria sentir, fazendo-me andar depressa e livrar-me daquele misto de cores e cheiros que me deixava enjoado. Tentei me afastar dos pingos d’águas que de hora em hora salpicavam minha pele, mas parecia uma tarefa árdua, porque eles insistiam me contatar. O acúmulo das inofensivas gotas transformava-se numa correnteza difícil de controlar. As gotas nunca se mantinham quietas, e de longe, eu sempre as admirava. Eu não era uma gota, eu era apenas quem elas atingiam. Mas queria tornar-me uma. 

 Apesar de saber que eu nunca seria.

1.8.16

MEU OUTRO EU

Imagem por: Pexels.com

A voz que soa para todos, também soa para mim, mas não a ouço – não a entendo. O seu tom se desfaz ao contatar meus ouvidos, cobertos por folhas alaranjadas que impedem a passagem de ruídos que julgo desnecessários. 

Os números me diminuem, e provam que o "não necessário", talvez não seja o sonido, e sim, eu. Eu desejo falar das flores; das rosas apaixonantes, e das brancas que ressecam nos túmulos. Citar os pássaros é a minha saída, e pintá-los em um céu azul é a porta de entrada de minha liberdade. Eu levanto para ser esmagado, para permitir que me pisoteiem e me façam querer voltar a dormir. Eu sonho no silêncio, persigo palavras enquanto fujo de monstros que misturam números e letras para me atingir. Eu não escuto, não entendo. Há vestígios de guerra dentro de mim, e os meus “Eus” não param de se expor, gritando as suas divergências para quem quiser apreciar. Eu o escondo, protegendo-o, pobre Eu – descontrolado, deseja perder o próprio lugar. Eu já não posso persegui-lo, mantê-lo aprisionado, pois ele vem ganhando força, tornando-se maior do que eu. 

Espere um pouco, observe os movimentos, são expressivos e envolventes. Ensine-me a fazer igual. Não preciso saber o que há dentro da carne, eu só quero aprender a manuseá-la. Essa cadeira, essa cadeira petrifica a minha carne, a torna achatada, fazendo-a apodrecer. Não permitirei que apodreça, não mais uma vez. Temo voltar ao poço, ainda há resquícios da lama em meus olhos. Voltar ao poço não seria tão difícil. Eu renasci, há quase um ano. Pelo menos é o que eu acho – eu deveria ter renascido completamente. 

Matem o meu Eu, antes que eu, seja morto por ele. Já estou cansado de morrer nas mãos dos outros sem ter porquê. Senti o sofrimento tocar minha pele, enquanto eu permitia que as chamas se alimentassem da minha alma. Eu provei da morte, e o quão o fogo é frio – percebi como é difícil ser a vítima, e permanecer calado enquanto facas em chamas fincavam a minha pele também nunca foi fácil de suportar. 

Eu não quero voltar a queimar.

25.7.16

CACO E PAPEL

Imagem por: Pexels.com
Deixei que o copo de vidro caísse, e sobre os cacos, velejei. Queria sentir o quão profundo os cortes seriam, e percebi que me ferir era tão prazeroso quanto quebrar os vidros. Eu não queria apenas fragmentá-los, eu queria observar tudo desmoronando. Eu gostava do efeito que a hélice tinha sobre minha pele, quando eu permitia que ela me rasgasse e se banhasse em meu sangue. Admirar o meu corpo perfurado e meus ossos se partindo era engraçado, e ver os cacos de vidro refletirem meu sorriso sem dentes e ensanguentados, me incentivava a continuar.

Diversos papéis espalhavam-se pelo chão, e eu podia sentir que todos tentavam fugir de minhas mãos. Mas eu fui rápido o suficiente para pegá-los e engoli-los sem mastigar. De todo modo, eu insistia em guarda-los dentro de meu estômago. Eu queria ter dentes para puder despedaça-los, mas como eu não tinha, no final da noite eles voltavam para o chão através de meu vômito. Por isso eu ingeria o vidro, para deixar que ele corroesse o meu estômago a procura dos papéis que lutavam para continuar ao meu redor. 

Esses papéis estavam sempre fechados, amassados, em formato de bolinhas – não era fácil ingeri-los. Uma vez, uma única só vez, quando eu não tinha mais forças para vomitá-los, resolvi abri-los. Foi quando no chão frio do cômodo escuro, rodeado de papéis feito embrulhos que me cercavam, percebi que dentro deles havia algo perturbador. Uma coisa estranha, que eu nunca imaginei que estaria ali. Que me encarava como se tentasse me entender. Eu não conseguia acreditar no que os meus olhos me mostravam, mas era o que eu enxergava.

Eu enxergava palavras, e nas mãos delas, que eu morri.