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24.8.16

TERRA MOLHADA

Imagem por Pexels.com

Sentia o frio adentrar a brecha que a porta lhe dava, enquanto eu olhava através das cortinas o quanto o dia parecia embaçado. Eu quase não tinha o controle do meu corpo, que implorava para permanecer inerte. As cobertas funcionavam com ímã, e insistiam, debatiam-se tentando me alerta de que naquela manhã, eu não deveria levantar da cama. O embrulho dentro de meu estômago gritava o meu nome, o odor tentava me fazer adormecer, minhas pernas teimavam em regredir, mas eu ignorava todos as pistas recebidas.

O clima contribuía para que meu humor não permanecesse tão agradável, mas eu precisava filtrar o que eu sentia, e impedir que as minhas agulhas perfurassem tecidos que não mereciam encher-se de fardos. Lentamente, e calado, eu dava passos sem um destino o qual eu quisesse chegar. O instrumental de uma música – que eu já não lembrava o nome –, circundava por meus pensamentos, como se esperneasse para que eu a ouvisse.

Deixei a água gelada contatar meu corpo a procura da minha alma, que em todas as manhãs, perdia-se em vão. O ralo fitava-me inquieto, quase gritando meu nome. Talvez estivesse cansado da minha falta de ânimo, que a água costumava levar até ele. Pobre ralo, ele só queria que eu cantarolasse durante o banho, mesmo desafinado e fora do tom. 

O aroma do café também me causava um embrulho no estômago, e revelava uma sensação que eu já não queria sentir, fazendo-me andar depressa e livrar-me daquele misto de cores e cheiros que me deixava enjoado. Tentei me afastar dos pingos d’águas que de hora em hora salpicavam minha pele, mas parecia uma tarefa árdua, porque eles insistiam me contatar. O acúmulo das inofensivas gotas transformava-se numa correnteza difícil de controlar. As gotas nunca se mantinham quietas, e de longe, eu sempre as admirava. Eu não era uma gota, eu era apenas quem elas atingiam. Mas queria tornar-me uma. 

 Apesar de saber que eu nunca seria.